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Foto Carlos Urbim

 

 

 


Mural

Adorei os depoimentos da CLaudia Laitano e do Zé Augusto Marques em especial. Urbim foi uma referência na literatura do Rio Grande do Sul e do Brasil.

IEDA L. CABRERA - PORTO ALEGRE (31/08/2015)




Carlos Urbim, Eterno!
Eu perdi um grande amigo. Eu perdi um grande parceiro de trabalho. Eu perdi uma pessoa que sempre me estimulou e me ensinou muito no mais amplo sentido da palavra. Eu perdi um grande autor que me presenteou com uma personagem única, humanizada, a Traça Biblió, cuja pele visto há 24 anos. Certa vez eu havia feito uma pequena pausa em minha atuação. Quanto retomei foi para ele a primeira pessoa que telefonei e disse: "Tô voltando". Ele me respondeu: "A ribalta te espera"! Esse era e é o Carlos Urbim porque ele não está mais entre nós fisicamente, mas sua obra, sua ética, sua criatividade, sua generosidade e sua alegria contagiantes ficarão sempre nos nossos corações, nas nossas vidas.
A cultura brasileira perdeu um grande jornalista e um grande escritor que, sobretudo, investiu na infância. A grandiosidade do Urbim fez dele uma pessoa e um profissional inclusivo, generoso. Aprendi muito com ele sobre a humildade, uma das suas grandes características. Eu perdi muito, mas também tive o grande privilégio de conviver com uma pessoa que tratava bem a todos e todas. Então, eu estou chorando, mas eu convivi com alguém que era uma usina de ideias; um grande talento e dono de grande energia positiva e profunda fidelidade. Gracias, gracias, gracias, Carlos Urbim! Boa viagem, amigo!

Dinorah Araújo - Porto Alegre - RS (18/06/2015)




Querida Alice,
tão feliz e emocionada fiquei pelo reconhecimento e carinho que tiveste por nosso trabalho. Abraço de todos os professores que são agraciados por este espaço. Beijo

Aline Porciuncula da Silva - Porto Alegre (04/06/2015)




Conheci o Urbim assim que entrei na ZH. Eu era um guri, no início dos anos de 1990, e o via de longe, lá no segundo caderno. Até que fui trabalhar por lá. E foi demais! Fechar um caderno com ele era um presente. Ele, com seu vozeirão, era doce e humano como pouco vi. Tinha uma risada única, capaz de te tirar de qualquer concentração. E também era humilde como jamais vi. Era gente. Muito gente. E adorava contar histórias. E com aquela voz de quem estava encenando, era um show. Algumas histórias jamais vou esquecer, como as que se passaram em seu apartamento, quando era jovem aqui em Porto Alegre.
Urbim foi cedo. E pessoas como ele passam por esse mundo pra nos dizer que vale muito ser gentil, educado, amoroso, cuidadoso... Que vale ser gente de verdade. Nós, os mais velhos, vamos sentir sua falta. Mas as crianças, suas grandes amigas, pederão a chance de crescer mais felizes.
Um abraço, Urbim. E obrigado por tudo!

Fábian Chelkanoff Thier - (09/04/2015)




Um querido parceiro, um poeta, escritor amado pelas crianças, jornalista que sempre divulgou com entusiasmo a produção literária, o patrono da Feira do Livro de Porto Alegre mais alegre, um companheiraço da querida Alice Urbim. Abraço e carinho para a família Urbim.

Ricardo Silvestrin - (09/04/2015)




Hoje pela manhã, quando acordei,
me disseram que o Carlos Urbim havia falecido.
E eu, cá com meus botões pensei:
Desde quando que um poeta com alma de criança morre?

Zé Augustho Marques
www.zepoesia.blogspot.com

Zé Augustho Marques - (09/04/2015)




Pipas e origamis para dizer adeus a Carlos Urbim
Por Rosane de Oliveira.
13 de fevereiro de 2015

Carlos Urbim, o guri daltônico nos deixou nesta manhã de neblina em pleno fevereiro. Sou tentada a achar que as nuvens desceram até o chão em Porto Alegre para envolver a alma do nosso querido amigo e carregá-lo para a eternidade. Urbim nos deixa órfãos de suas risadas, de seu sotaque fronteiriço, de seus textos que encantam crianças e adultos, da sua bondade, do seu jeito de eterno guri, mesmo que tenha se tornado avô.

Há 22 anos, eu só conhecia o Urbim dos livros. Entramos no mesmo dia em Zero Hora, no inverno de 1992. No processo de integração nasceu uma admiração pela pessoa generosa que ele era. Foi amizade à primeira vista.
Com meus filhos pequenos, frequentei suas inspiradas sessões se autógrafo, que arrebatavam as crianças. Depois ele saiu de ZH e passamos a nos ver menos. Nos aniversários da Cíntia Moscovich e do Luiz Paulo Faccioli, sempre com a sua Alice, nos eventos da literatura, na Feira do Livro. Ele foi um patrono carismático como poucos, iluminando a Praça da Alfândega com sua luz.

Se eu pudesse escolher um jeito para me despedir do Urbim, reuniria os amigos e soltaria pipas de todas as cores numa colina do Pampa. Pipas que ele veria com outras cores, transformadas pelo olhar daltônico e pelo jeito todo próprio de enxergar poesia onde a maioria das pessoas vê apenas um papagaio de papel de seda. Em vez de flores, eu faria como os japoneses: enfeitaria a despedida do meu amigo com cordões de origamis, pequenos tsurus de todas as cores, voando ao encontro desta alma que se desgarrou do corpo e cobriu de neblina o céu de Porto Alegre.

Rosane de Oliveira. - (09/04/2015)




Meu amigo Carlos Urbim sabia ficar bravo. Não foram poucas as vezes em que ouvi aquele vozeirão de gaúcho fronteiriço, em geral domado por um temperamento de natureza risonha e afável, erguer-se acima da acomodação bem-comportada para denunciar pequenas e grandes injustiças ou demonstrações explícitas de mau gosto e vulgaridade. Urbim era daqueles que não tolerava deseducações, desrespeitos, mesquinharias e que ninguém esperasse dele os bons modos de reclamar baixinho daquilo que considerava que não estava bem.

No mais das vezes, porém, Urbim parecia um embaixador das delicadezas do mundo radicado no território na rotina burocrática de todos os dias. Como escritor, lançou-se na literatura infantil com um livro autobiográfico chamado Um Guri Daltônico e por isso muitas vezes assisti ao meu amigo explicando para algum curioso como era esse negócio de não conseguir enxergar determinadas cores. Para a maioria das pessoas, é necessário um considerável exercício de imaginação para conceber o mundo com os olhos de Dadau, personagem do livro, o menino que na hora do jogo de futebol passa a bola para o jogador errado porque confunde as camisetas e às vezes morde a parte branca e sem gosto da melancia em vez da deliciosa polpa vermelha da fruta.

Na convivência diária com o Urbim, era mais ou menos o contrário que acontecia. No jornal, no tempo em que trabalhamos juntos, me acostumei a vê-lo chamando atenção para nuanças que, distraídos, talvez nos passassem despercebidas. Não a cor berrante dos fatos que se impõem ou que nos são impostos, mas o matiz discreto de uma emoção ou de um gesto delicado que nem todos percebem ou se dão ao trabalho de mencionar em público. O Urbim via muito mais do que 50 tons de cinza onde muitos só enxergam preto ou branco - e sabia colorir todas as conversas com aquela genuína capacidade de rir alto e de se espantar que muita gente deixa para trás depois de uma certa idade.

Pensando no Urbim e no que as pessoas têm dito e escrito sobre ele desde o momento em que a sua presença sempre cheia de vitalidade e energia transformou-se na matéria intercambiável da memória, percebo como são coloridas todas as histórias ligadas a ele. Não por acaso. O coração do Urbim era como aquela gigantesca caixa de lápis com 360 cores brilhantes que deixaria o guri daltônico tonto, mas que o homem generoso que ele foi soube franquear a todos a sua volta - e que os leitores sempre poderão descobrir, ou reencontrar, nos livros que ele deixou.

Cláudia Laitano - (09/04/2015)




Por que estás tão triste?
David Coimbra

As festas da editoria de Esportes eram as melhores da Redação da Zero Hora. De longe as mais animadas. Tanto que se esparramavam pelas outras editorias, ia gente de todo o jornal nos nossos convescotes.

Houve festas históricas, que causaram separações de casais que pareciam eternos e junções de casais que pareciam inverossímeis. Sempre tínhamos convidados especiais, alguns mais especiais do que os outros. Um desses, um especialíssimo, o Carlos Urbim.

Numa de nossas festas, realizada, se não me engano, no Clube Veleiros, à beira do rio, nós estávamos cantarolando umas musiquinhas meio que baixinho, meio que assim de viés, que a festa ia só no seu início, e o Urbim, de repente, jogou os braços para cima e saiu gritando, como se estivesse no meio de um dos velhos salões de Carnaval:

_ Ó, jardineira, por que estás tão triste? Mas o que foi que te aconteceu?

Nos primeiros cinco segundos, nos surpreendemos; nos cinco segundos seguintes, caímos na gargalhada; cinco horas depois, ainda estávamos cantando junto com o Urbim.

Aquela história da jardineira meio que virou um código nas nossas festas. Quando o clima estava paradão, alguém olhava para o Urbim e começava:

_ Ó, jardineira…

E ele já atirava os braços para o alto e saía:

_ …por que estás tão triste? Mas o que foi que te aconteceu?

E a festa pegava fogo.

O Urbim era um cara divertido. Sempre que lembro dele, ele está rindo. Não consigo imaginar o Urbim sem um sorriso no rosto bondoso. Ele tinha uma voz grossa e um sotaque da fronteira oeste do Rio Grande. Falava DÊ, como os gaúchos de Livramento e Uruguaiana, não dji, como os porto-alegrenses do Bom Fim e do IAPI. “DÊ modelo a toda terra.”

Mas aquele jeito gaudério de falar enganava. O Urbim não era um homem gaudério. O Urbim era um guri gaudério-porto-alegrense-brasileiro-internacional.

Sua risada era célebre na Redação. A horas tantas, no meio da tarde, a gargalhada do Urbim ecoava de algum ponto, por algum motivo, e todos nós, 200 pessoas, sorríamos sem motivo algum detrás dos nossos terminais de computador. E o dia ficava mais alegre.

Uma vez, eu estava no bar da Zero Hora, falando sobre o Paulinho da Viola, que ia fazer um show na cidade durante o fim de semana. Comecei a cantar:

_ Violão, até um dia, quando houver mais alegria eu procuro por você…

O Urbim ouviu, sorrindo.

_ Tu gostas tanto assim do Paulinho da Viola? _ perguntou, com sua concordância perfeita.

_ Sim! _ respondi. _ Gosto mesmo! _ e arrisquei outra: _ Hoje eu vim, minha nega, como venho quando posso, na boca as mesmas palavras, no peito o mesmo remorso…

O Urbim riu muito da minha performance canhestra. No dia seguinte, veio com dois ingressos para o show do Paulinho:

_ Ó. Depois me conta o que achaste.

Achei maravilhoso, Urbim. Um dos melhores shows da minha vida.

O Urbim não vai mais fazer o bem. Não vai mais rir com aquela sua risada que nos fazia rir sem razão. Ele morreu ontem, aos 67 anos de idade. Ó, jardineira, por que estás tão triste? Eu sei por que, jardineira. Eu sei por quê.

David Coimbra - (09/04/2015)




NOSSO URBIM
Fabrício Carpinejar

As coisas não são como são, elas também enxergam. Urbim colocava óculos de grau nas coisas.

Carlos era o sentimento do olhar mais do que o olhar, era a emoção dos objetos muito além do seu simples uso.

Nosso Chaplin, nosso Carlitos de sotaque da fronteira.

Dos seus cadarços, criava espaguete. De sua sola, preparava um chorizo. Do couro das botas, inventava chimichurri.

Ninguém passava fome com sua imaginação.

Nosso piá farroupilha, nosso guri daltônico.

Convertia bolas de gude em estrelas. A partir de uma gamela, mostrava a solidão do pampa de noite. Com rodas de bicicleta, explicava como as águas passavam debaixo da ponte de Imbé - rápidas como aros girando.

Nosso Júlio Verne, nosso chapeleiro maluco.

Suas histórias não tinham fim. A gente sempre se transformava lendo cada uma delas. As coisas sempre se transformavam em outras coisas. Infinitamente.

Urbim não foi embora, ele também se transformou.

Sua gargalhada será o som de um saxofone temperando o minuano. Suas sobrancelhas ensinarão as folhas dos plátanos a cair com os dois pés juntos. Seus cabelos negros formarão nuvens de uma chuva de verão.

Ele próprio deve ter virado um anjo-golfinho. Ou a própria poesia entre as nossas lembranças.

Fabrício Carpinejar - (09/04/2015)




O guri Urbim

O riso fácil, solto; as palavras sinceras; o tom de voz forte e ao mesmo tempo doce; o jeito de guri sempre vivo; o brilho da infância estampado nos olhos, este era o peralta Urbim, um guri de muitos anos; um guri que aprendeu que a meninice não tem idade, não tem tempo, não tem hora. O guri que, agora, deve estar entre os anjos, empinando pandorgas, jogando bolinhas de gude, colando figurinhas no álbum da existência.

Urbim era um guardador de memória, era um ressuscitador de brincadeira de seu tempo. Através de suas histórias, de seus poemas, ia trazendo ao presente um tempo que já não era mais nosso, mas que voltava a ser nosso através de seu olhar nostálgico: os cadernos de temas, os álbuns de cromos, os carrinhos de madeira, as cinco marias, o peão, o bambolê... E o mundo rodava, rodava, rodava sua ciranda de alegrias.

Urbim foi gente boa. Gente daquelas de encher a sala com seu riso. Gente de quem a gente gostava de estar por perto. Gente que se imortalizou criança. Vê-lo a narrar suas histórias, fazendo uso dos personagens que ele mesmo forjava em pedra, em porongos, em pedaços de madeira, era permitir-se mergulho na infância. Urbim, nestes momentos, se tornava guia pelas estradas da imaginação. E se a gente era criança, aceitávamos a mão que se estendia, acolhíamos o abraço da fantasia. E se a gente era adulto, aceitávamos o convite para voltarmos a um tempo tão nosso e tão esquecido, aceitávamos a magia infantil com que ele nos presenteava.

E, na sexta última, sei lá por que, o Urbim resolveu contar suas histórias, dar seu riso, criar seus personagens em outra dimensão. A nós, que por enquanto aqui ficamos, resta o carinho presente em seus livros. Estes estarão por aqui para sempre. Ou, pelo menos, até enquanto houver alguém com coração infante que abra as suas páginas.

Caio Riter

Caio Riter - (09/04/2015)




a ZH desta quarta-feira Almanaque Gaúcho por Renato Dalto
O CÉU DO URBIM

RENATO DALTO
Agora nos faltará
o olhar da ternura
o olhar do menino
que sempre ele foi
O olhar do menino
que não seremos mais
Nunca mais
Agora faltará a tarde
partida ao meio
pela gargalhada
Agora não tem marmelada
no circo do Biduca
Não tem bolacha maria
no bar da Ponte Seca
Não tem o abraço na vida
dos longos braços,
das mãos em palma,
do peito aberto
Urbim vai subir a lomba
de volta ao chão
De pés no chão
de calças curtas
de cores inventadas

Renato Dalto - (09/04/2015)




Por Fraga da Coletivanet Portal de Notícias
Em homenagem ao adorado amigo Carlos Urbim, raríssima pessoa, que nos deixa cedo demais e abre um rombo em nosso peito, republico abaixo txt duma coluna de 2009, aqui mesmo na Coletiva.net:

CARLOS URBIM.
UM PATRONO COMO NENHUM OUTRO.
Depois de tantos anos de mesmice patronal, num longo rol de figuras taciturnas e solenes, posudas e discursivas, acaba de ser lançado, nesta edição de 2009, o Padrão Urbim de Patrono da Feira do Livro. Finalmente um patrono que a gente sabe que adora ler, que a bagagem intelectual está na cara e mesmo assim não soa empostada, que é evidente que tem prazer em escrever, que consegue entusiasmar leitores por ser acessível a todos, que acrescenta energia ao dia a dia de um evento já energizado, que empolga pela sinceridade com a vida, que humaniza o negócio e o mercado livreiros, enfim, alguém que de fato faz por merecer essa efêmera homenagem sob os jacarandás. Claro, tudo isso, lá nele, é o Urbim de sempre e de todas as circunstâncias – o jornalista, o professor, o escritor, o comunicador, o amigo – e não uma atuação premeditada, momentânea. Daqui em diante, vai ser difícil manter esse espontâneo e arrebatador padrão, o de um cara adorável que deixa um rastro contagiante por onde passa, a validar a literatura e a leitura pela simples presença entre as barracas e o envolvimento natural com o público. São raros os Urbins. Mas pelo menos já fica uma referência indiscutivelmente singular para as próximas escolhas, em edições vindouras. Quem sabe essa esfuziante marca registrada do 55º patrono fica como um pré-requisito para futuros candidatos? O Carlos Urbim é o Vicente Rao da festa da Feira, o Rei Momo do Livro. Pelo brilho no cargo, merecia reinado vitalício.

Fraga da Coletivanet - (09/04/2015)




Cíntia Moscovich: a ausência de Urbim

Faz duas semanas que o Carlos Urbim morreu.

Eu viro e reviro essa ideia, tento me habituar, e em todos os lados o que eu encontro é sempre desconcerto. A morte do Urbim é uma ofensa, uma impossibilidade, um absurdo em seus próprios termos. Dentro de casa, cada peça em que entro acomoda coisas que ele e sua Alice trouxeram: cerâmicas, cartões, quadros, louças, dobraduras, bonecos, livros, bolinhas de gude, gamelas, achas de lenha.

Impossível deparar com esses mimos e não lembrar do significado de cada um – porque todos os presentes que vieram dos Urbim possuem histórias que tiram os objetos do estado de objetos e os transformam em preciosidades.

O Urbim acreditava nisso, nas histórias que recheiam as coisas e nas coisas que recheiam as pessoas. Por acreditar nisso, ele criou os filhos contando histórias. E mesmo quando o Emiliano e o Glauco cresceram, ele continuou com suas narrativas, todas elas, para crianças ou para adultos, contadas do mesmo jeito, com a mesma entonação admirada. Enredo, palavra, texto, origens, traço, arte: estas eram as crenças do Urbim.

Leia outras colunas de Cíntia Moscovich

A casa da avenida América guarda os tesouros urbinianos, objetos e brinquedos cheinhos de histórias que ele colecionou com sua Alice ao longo do tempo e ao redor do mundo. A casa é o relato de um casal que se amou com alegria, que teve filhos queridos, guris que se tornaram homens bons. Por sua generosidade criativa, pelo profundo senso de justiça (e que gerava inflamadas broncas), pela risada que transformava em dia a mais negra noite, Urbim viveu cercado de afetos.

Soube cultivar amizades que o estimavam com sinceridade, amealhou leitores que cresceram adorando suas obras. Não é pouca coisa para uma vida. Como herança maior, nosso querido deixa para seu netinho Miguel um livro chamado Avô Aprendiz, escrito numa caligrafia caprichada e no qual conta a própria história.

É um legado de amor, um testamento de nobreza, que pode nos consolar um pouco. Um pouco. Por agora, a perda do Urbim ainda me soa como uma vileza. Quem, nas reuniões com nossos amigos, vai gargalhar convocando o sol para iluminar a noite?

CÍNTIA MOSCOVICH

Cíntia Moscovich - (09/04/2015)




O GURI DALTÔNICO CHEGA AO CÉU

E então chegou ao céu o guri daltônico e que gostava de contar histórias. Por enquanto, estava achando o lugar bem bacana, e mal conseguira conter o riso quando São Pedro veio recepcioná-lo, as chaves do lugar balançando na cintura: ninguém tinha contado ao guri que as barbas do santo eram verdes!
Mas é claro que o guri andava caminhando nas nuvens (estas nuvens cor-de-rosa, engraçadas) com alguma preocupação. Durante todos os seus anos de infância, que começaram no pampa – piá farroupilha - e nunca terminaram, era lá para cima, longelongelonge, no céu, que ele olhava quando queria enxergar as pandorgas. Lindas sempre, de todas as cores, tamanhos, misturas e formatos. As pipas eram seu fascínio, passava horas olhando o céu e imaginando histórias. Histórias que, mais adiante, contaria aos outros.
Mas havia esta preocupação recém nascida: agora que já estava no céu, como faria para olhar para cima e procurar pandorgas?
Mas então passava pela estrada azul claro (as estradas do céu tinham várias cores, pensou) um molequinho menor do que ele, e o guri daltônico resolveu compartir sua inquietação: como empinar pandorgas ao céu, se já estavam no céu?
O pequeno olhou para ele e respondeu que era simples: em vez de brincarem com os papagaios lááá em cima, brincavam com eles lááá embaixo.
“Mas e funciona?” – perguntou o guri, intrigado.
“É uma beleza, sempre tem vento. Só precisa saber desviar das estrelas.” – respondeu o moleque, adendando que até São Pedro, vez por outra, entrava na brincadeira. (O guri imaginou aquele velhinho gordo e de barbas verdes lutando com os fios da pandorga, enlinhando-os numa das pontas do Cruzeiro do Sul, e não pode deixar de sorrir.)
“E até dá para empinar papagaios para cima.” – continuou o garoto, apontando a mão esquerda para o espaço – “Mas precisa ser muito bom de pipa. É que os ventos de cima são diferentes: não é mais simplesmente o céu, já é a Eternidade.”
O guri daltônico sorriu outra vez, bom de braço que era: era lá na Eternidade que iria empinar suas pandorgas.
Vou gostar deste lugar, pensou ele

Henrique Schneider

Henrique Schneider - (09/04/2015)




Quando eu tinha 13 anos, pela primeira vez, eu ganhei um prêmio da Zero Hora chamado "Seja Jornalista Por Um Dia". Naquele ano eu tive a honra de escrever e ser publicado pelo ZH graças ao concurso homônimo, que consistia numa espécie de jornal especial do dia 12 de outubro que publicava reportagens, matérias, fotos e charges produzidos por crianças e adolescentes de 8 a 15 anos. A ideia era essa, incentivar a produção textual/jornalística/crítica desde cedo, fazendo que por um dia, o maior jornal do Rio Grande do Sul fosse tomado por "pequenos jornalistas". Eu participei 3 anos do concurso, e tive o privilégio de estar na seleção das 3 edições especiais consecutivas.

Por trás desse projeto, porém, havia um grande homem. Um mágico das palavras. Uma eterna criança. Um dos jornalistas mais brilhantes que eu tive a honra de conhecer: Carlos Urbim.

Urbim era mesmo um ser humano extraordinário. Foi um dos maiores jornalistas do Rio Grande do Sul, com uma honrosa carreira consolidada na imprensa gaúcha e brasileira. Era também poeta e escritor infantil, um dos grandes nomes da literatura gaúcha, membro da Academia Rio-Grandense de Letras. Um apaixonado pelo o que fazia, um incentivador de jovens gerações - e eu me incluo nisso - a ter amor pela escrita e pela literatura. Era um cara que quando falava transmitia um raro prazer pelas palavras, uma devoção carinhosa pela arte de colocar ideias - sem medo como elas parecessem bobas ou não - num papel.

Hoje o mundo fica mais triste. Perde seu "olhar daltônico", seu sotaque da fronteira, seu gosto de bolacha Maria e cheiro de chuva na calçada. Urbim foi mais um dos meu ídolos. Urbim disse-me um dia para eu nunca parar de escrever. Depois ele declamou um poema que falava sobre sermos quem quisermos enquanto estivéssemos escrevendo. Naquele momento, eu quis ser Carlos Urbim.

Vá em paz, guri daltônico

"todo
Fim
Tem assim
Gosto
Tão ruim?

por isso,
então,
a gente continua
atravessa a rua
-Vive no mundo da lua!"

Gregory Weiss Costa

Gregory Weiss Costa - (09/04/2015)




Ele não é só um escritor, ele é a Literatura.
Moacir Sclyar em entrevista sobre Urbim

- (09/04/2015)




Da coluna da Célia Ribeiro no Donna deste domingo.
Emoção de Páscoa! Obrigado!

Homenagem à Urbim

...
O escritor Carlos Urbim, falecido em fevereiro, irradiava alegria e doçura, mas sabia também ser firme nas convicções, fiel aos amigos e seus ideais. Sei por experiência própria. Orgulhoso de suas raízes, nunca perdeu o sotaque da Fronteira, e a voz grave e forte era ouvida com ditos de alegria sobre as ilustrações de um livro seu a ser lançado. Ele se deslumbrava pelos livros sem se acanhar, e a gente vibrava com aquele entusiasmo pela vida. Se houve pessoa que manteve sua parte de menino foi Carlos Urbim. Nenhum patrono da Feira do Livro foi mais feliz que ele.

Na homenagem prestada no Centro Municipal de Cultura, a voz de Urbim era ouvida em entrevistas exibidas nas telas da Kombi Carlos. Mais tarde houve espetáculo no Renascença com plateia superlotada. O próprio Urbim parecia estar presente, aplaudindo o mestre de cerimônias desenvolto que foi o menino Denis Carvalho. Mas a emoção maior foi com balões soltos ao vento em meio às arvores, voando para nova dimensão.



Célia Ribeiro - Porto Alegre (09/04/2015)




Conheci o Carlos Urbim numa gelada manhã do mês de junho de 2004, quando esteve no Colégio E. Pe. Colbachini, dee Nova Bassano. Era nossa primeira feira, em 2004, para a qual retornaria em 2009, na sexta edição. Sua participação em ambas as vezes foi um sucesso. Lembro com carinho especialmente dos livros Um Guri Daltônico e Uma Graça de Traça, que encantaram nossos alunos. Com seu jeito singular, uma "criança grande", ganhou de uma aluna a alcunha de "Fora da Casinha", o que inspirou o escritor a escrever um poema para ela, fato relembrado por ele anos depois ao nos encontrarmos na feira do livro de Porto Alegre, quando foi patrono e o visitei com meus alunos, sendo muito bem recebida. Vai fazer muita falta na literatura, mas continuará vivo em suas obras.

Marli Fiorentin - Nova Bassano (23/03/2015)




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